AMARAL, R.
Xirê! O modo de crer e de viver no camdomblé. Rio de Janeiro: Pallas, São Paulo: Educ, 2002.
Mídia
R.L. O processo de midiatização traz novas abordagens no que se refere à construção de identidades e culturas. A sociedade contemporânea está imersa em um espaço midiatizado, envolta pelas novas tecnologias. Assim, com a propagação das esferas virtuais, a comunicação deixa de ser centralizada e unidirecional "passagem da comunicação de massa" e passa a ser transformada pelas redes digitais, a internet "comunicação virtual". Portanto, as mídias através dos discursos e dos aparatos tecnológicos, vão produzindo novos sentidos sociais.
Resta ainda a crítica a impessoalidade e superficialidade nas relações sociais urbanas. Para entender esse aspecto é preciso dar conta de quem é e como vive o habitante da cidade. É possível dizer que ele se define pela experiência resultante de sua atuação nas várias esferas da vida social: no trabalho, na família, na escola, na rede de vizinhança, nas associações religiosas e de lazer, nas instituições políticas, etc. (AMARAL, 2002, p. 16-17).
Assim tais características multidimensionais dos sujeitos sociais, são representadas pelas mídias, existindo uma relação de proximidade e de identificação dos leitores e dos espectadores, por isso na construção de notícias há a necessidade de ressaltar nos fatos particularidades do cotidiano das pessoas.
No entanto, tais informações não favorecem um olhar crítico, pelo contrário tendem a formatar sujeitos, gostos e comportamentos. Desta forma na sociedade contemporânea as relações sociais são compreendidas de maneira superficial e efêmero.
EducaçãoD.M. O sujeito é constituído com valores familiares, religiosos, sociológicos, antropológicos, históricos, biológicos, enfim, Vygotsky diz que o sujeito é uma teia de interações, e é essa teia que o homem da cidade é construído e o processo de moldá-lo é através da educação.
A escola tem (ou deveria ter) o intuito de viabilizar e direcionar os sujeitos às práticas sociais, mas ela também traz o intuito, como diria Foucault, de controlar, classificar e naturalizar certos conceitos, formando o homem utilitário que a cidade precisa.
A escola através do seu discurso nomeia, demarca, estigmatiza, hierarquiza, ou seja, ela privilegia marcando a diferença do outro. Como o negro e todo seu processo histórico de luta e de religiosidade não é transmitido de maneira sincera e verídica. A escola não dar conta do pluralismo existente porque não é de interesse, estar reavisando o processo histórico do negro no Brasil.
Portanto, com as idas ao terreiro e das entrevistas realizadas, fica clara a noção de grupo que o texto expressa. Assim, a partir das perspectivas de Rey a respeito da subjetividade social e individual, o sujeito atua em várias instâncias da sociedade e ele se configurará em seus respectivos grupos. A religião afro-brasileira tem seu espaço próprio, vestimenta, comidas típicas todo um significado de coisas que caracteriza esse grupo e ao mesmo tempo são trabalhadores, estudantes, assim sendo, convivem em outros grupos sociais.
Esses grupos se encontram também nas escolas, mas normalmente eles não são percebidos porque a escola propõe um currículo, onde a ideologia e a cultura do cotidiano escolar reproduz as relações de poder.
Nas entrevistas realizadas fica evidente o preconceito quanto a religião afro-brasileira, o que faz com que o jovem omita sua religião, isso porque a escola através de seus conteúdos cristalizados e do discurso utilizado favorece as desigualdades e pontua as diferenças.
Uma fala dos entrevistados chama a atenção que “no candomblé se ensina regras de vida”, Amaral quando aborda os estilos de vida, fala de uma vivência de mundo, de estilo, de escolhas, de regras diferente da judaico-cristã a qual é predominante nas instituições educacionais, o que faz com que esses jovens não sejam reconhecidos e identificados.
A cultura afro-brasileira tem toda uma filosofia de vida a partir dos mitos, possibilitando uma dinâmica educativa que gera conhecimento e aprendizado. E é nesse estilo de vida que se tem noção de respeito, comunidade, do lidar com a natureza e sua postura ética.
Não é preciso ser da religião para ver as possibilidades de compreensão de mundo. Basta apenas estar disposto a conhecê-los e apreciá-los, um mundo colorido, mágico e sensual que a África oferece.
Mulher
EL.: Ao Candomblé (e demais religiões de matriz afro-brasileira), entendido aqui como um grupo com características próprias e que, ainda assim, compartilham experiências em outros grupos, compreende um certo poder aglutinador, que une o "povo de santo" porque atravessa muitas esferas da vida do sujeito, o que culmina num corte que o divide em antes e depois do candomblé. Essa força que junta os sujeitos em uma comunidade com um estilo próprio de vida vem, em grande parte, das mãos da mulher negra que soube receber e cuidar de indivíduos quaisquer que chegavam aos terreiros, aonde é chefe, pollítica, mãe, educadora, cozinheira e sacerdotisa, entre outros.
"Os terreiros de candomblé, independentemente de sua filiação ou localização, recebem pessoas que são integradas à religião e à sua hierarquia por meio do processo de iniciação (que é particular e individualizado), o qual vincula os adeptos pelo "parentesco mítico" da "família de santo"" (AMARAL, 2002, p. 25)
A figura da mãe-de-santo, a mãe que acolhe e dá apoio aos seus filhos - todos os integrantes da família de santo - é também provida de autoridade e respeito, o que envolve a comunidade numa esfera afetiva que os liga de maneira concreta à religião afro-brasileira (a afetividade, que está intrínsecamente presente nas escolhas feitas por estes indivíduos) e que, acaba ligando os adeptos à religião aos diversos âmbitos que lhe são característicos, como vestuário, lugares frequentados ou vocabulário. A mulher é tida então, como a veia condutora de todo esse processo, pois conduz os sujeitos na aquisição do estilo de vida do candomblé; não somente na figura da mãe-de-santo, pois a mulher habita diversos outros espaços dentro do terreiro, como cozinheira ou ekéde*, por exemplo. Em todos esses outros espaços, a mulher representa ainda uma "mãe" para um iniciado, pois no candomblé, se respeita a ancestralidade e assim, o tempo de iniciado é o que define a hierarquia dentro do terreiro.
Sendo assim, devemos destacar que o papel da mulher dentro de um terreiro e da feminilidade dentro da mitologia africana, de forma geral, são fatores constitutivos da cultura afro-brasileira e portanto, movimentos complexos da sociedade que devem ser levados em consideração.
*Ekéde: Ebômim do sexo feminino que não incorpora orixá. Ela tem como função auxiliar o orixá, dançar com ele, vestí-lo, enxugar seu suor durante a dança (por isso que trazem sempre uma toalha no ombro), etc. Geralmente é escolhida pelo próprio orixá incorporado, numa festa pública.