
"Todos os africanos levados para o Brasil o foram através da rota transatlântica, envolvendo povos de três regiões geográficas:
a)África Ocidental, de onde foram trazidos homens e mulheres dos atuais Senegal, Mali, Níger, Nigéria, Gana, Togo, Benin, Costa do Marfim, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné, Camarões;
b)África Centro-Ocidental, envolvendo povos do Gabão, Angola, República do Congo, República Democrática do Congo (antigo Zaire), república Centro-Africana;
c)África Austral, envolvendo povos de Moçambique, da África do Sul e da Namíbia.
Na literatura e outros textos sobre o assunto, diz-se geralmente que os africanos escravizados no Brasil foram trazidos do litoral da Angola, do litoral de Moçambique e do golfo de Benin, de onde embarcaram rumo ao Brasil. Mas, de fato, teriam vindo do interior das áreas citadas e de outros países e grupos étnicos, cuja documentação foi em grande parte queimada sob as ordens de Rui Brabosa, ministro das relações exteriores do Brasil."(pág. 20)
EL: devemos então fazer a relação de que, embora os documentos que comprovavam as origens dos africanos traficados para o Brasil tenham sido executados, os traços das culturas destes diferentes povos são percebidos nos cultos afro-brasileiros, que variam as tradições e costumes de acordo com os povos de origem.
"O tráfico negreiro instalou-se na África a partir de uma intervenção externa, árabe e ocidental, que ultrapassou o próprio continente. Por isso, não podemos aceitar a tese de um sistema escravista africano que justificaria e legitimaria as formas de escravidão que deram origem às primeiras separações e deportações de africanos historicamente conhecidas. Sem dúvida, alguns dirigentes africanos dos séculos XVI-XIX entraram nesses circuitos de tráfico humano como fornecedores da mercadoria humana num mercado internacional sobre o qual não tinham nenhum controle. Alguns se enriqueceram, tornando seus reinos bem potentes e armados com a ajuda dos traficantes estrangeiros, para garantir o fornecimento regular da mercadoria através de capturas pela guerra." (pág. 27)
"Após a Conferência de Berlim (1885) que definiu a partilha colonial da África entre os países europeus interessados em explorar política e economicamente esse continente, as imagens simpáticas e tranquilizadoras começaram a sombrear. A infância inocente foi substituída pela imagem de subumanos para justificar a invasão, a manutenção dos processos de colonização e a exploração econômica no continente e para facilitar a operação de sujeição." (pág. 33)
"As mulheres tinham uma posição de destaque na concepção militar de Chaka. A história da África registra exemplos de mulheres soldados que carregavam armas e participavam diretamente dos combates. Um caso célebre é o das Amazonas no reino de Abomé. Mas no reino Zulu de Chaka, as mulheres serviam essencialmente no apoio e a organização do exército." (pág. 62)
EL.: o engajamento militar das mulheres na África reforça o traço cultural que as difere em grande parte da civilização judaico-cristã. Característica esta, que acabou espelhada no Brasil, através das lideranças femininas em quilombos e levantes de resistência.
"Nesse sentido, quilombo não significa refúgio de escravos fugidos. Tratava-se de uma reunião fraterna e livre, com laços de solidariedade e convivência resultante do esforço dos negros escravizados de resgatar liberdade e dignidade por meio da fuga do cativeiro e da organização de uma sociedade livre. Os quilombolas eram homens e mulheres que se recusavam viver sob regime da escravidão e desenvolviam ações de rebeldia e de luta contra esse sistema."(pág. 72)
EL: após a abolição da escravatura e da proclamação da república, inseridos num novo contexto, a população negra continuou a organizar movimentos de resistência em todo o cenário nacional e até os dias atuais. São algumas dessas organizações: a Revolta da Chibata, no início do século XX; a Frente Negra Brasileira, fundada em 1931; o Teatro Experimental do Negro - TEN, beneficiando o engajamento político do negro, em 1944; e o Movimento das Mulheres Negras, articulando a discussão de gênero e raça na sociedade.
"A compreensão e sensibilidade para com a história específica das mulheres negras nem sempre ocuparam a atenção do movimento negro de um modo geral e nem do movimento feminista. Isso levou as mulheres negras a questionaram a ausência da discussão do gênero articulada com a questão racial dentro do movimento feminista e do movimento negro e a iniciarem uma luta específica. É assim que começa a se organizar o movimento de mulheres negras que, hoje, conta com vários tipos de entidades, em diferentes lugares do Brasil, com tendências, concepções políticas e atuação variadas." (pág. 133)
"Compreender a tradição religiosa afro-brasileira, recontar a história do povo negor na África pré-colonial, pós-colonial e, em nosso caso específico, durante e após o regime escravista brasileiro significa compreender um passado que para muitos de nós é desconhecido. Este passado e o modo com foi construído interfere e interferirá em nossas crenças e nas formas de inserção e vivência do mundo atual, seja enquanto negros, brancos e indígenas brasileiros." (pág. 140)
"Ao estudarmos essas formas de religiosidade negras constatamos que a presença do negro na formação social do Brasil foi decisiva para dotar a cultura brasileira de um rico patrimônio religioso desdobrado em inúmeras instituições e dimensões materiais e simbólicas, sagradas e profanas, de enorme importância para a identidade do país e dua civilização."(pág. 143)
"Porque o candomblé não distingue entre o bem e o mal do modo como aprendemos com o cristianismo, ele tende a atrair também toda sorte de indivíduos que têm sido socialmente marcados e marginalizados por outras instituições religiosas e não-religiosas. Isso mostra como o candomblé aceita o mundo da rua, da prostituição, dos que já cruzaram as portas da prisão." (Reginaldo Prandi. As religiões negras no Brasil: para uma sociologia dos cultos afro-brasileiros. Revista USP. São Paulo, n. 28, p. 64-83, dez/fev. 1996.) [pág. 144]
"As mulheres tinham uma posição de destaque na concepção militar de Chaka. A história da África registra exemplos de mulheres soldados que carregavam armas e participavam diretamente dos combates. Um caso célebre é o das Amazonas no reino de Abomé. Mas no reino Zulu de Chaka, as mulheres serviam essencialmente no apoio e a organização do exército." (pág. 62)
EL.: o engajamento militar das mulheres na África reforça o traço cultural que as difere em grande parte da civilização judaico-cristã. Característica esta, que acabou espelhada no Brasil, através das lideranças femininas em quilombos e levantes de resistência.
"Nesse sentido, quilombo não significa refúgio de escravos fugidos. Tratava-se de uma reunião fraterna e livre, com laços de solidariedade e convivência resultante do esforço dos negros escravizados de resgatar liberdade e dignidade por meio da fuga do cativeiro e da organização de uma sociedade livre. Os quilombolas eram homens e mulheres que se recusavam viver sob regime da escravidão e desenvolviam ações de rebeldia e de luta contra esse sistema."(pág. 72)
EL: após a abolição da escravatura e da proclamação da república, inseridos num novo contexto, a população negra continuou a organizar movimentos de resistência em todo o cenário nacional e até os dias atuais. São algumas dessas organizações: a Revolta da Chibata, no início do século XX; a Frente Negra Brasileira, fundada em 1931; o Teatro Experimental do Negro - TEN, beneficiando o engajamento político do negro, em 1944; e o Movimento das Mulheres Negras, articulando a discussão de gênero e raça na sociedade.
"A compreensão e sensibilidade para com a história específica das mulheres negras nem sempre ocuparam a atenção do movimento negro de um modo geral e nem do movimento feminista. Isso levou as mulheres negras a questionaram a ausência da discussão do gênero articulada com a questão racial dentro do movimento feminista e do movimento negro e a iniciarem uma luta específica. É assim que começa a se organizar o movimento de mulheres negras que, hoje, conta com vários tipos de entidades, em diferentes lugares do Brasil, com tendências, concepções políticas e atuação variadas." (pág. 133)
"Compreender a tradição religiosa afro-brasileira, recontar a história do povo negor na África pré-colonial, pós-colonial e, em nosso caso específico, durante e após o regime escravista brasileiro significa compreender um passado que para muitos de nós é desconhecido. Este passado e o modo com foi construído interfere e interferirá em nossas crenças e nas formas de inserção e vivência do mundo atual, seja enquanto negros, brancos e indígenas brasileiros." (pág. 140)
"Ao estudarmos essas formas de religiosidade negras constatamos que a presença do negro na formação social do Brasil foi decisiva para dotar a cultura brasileira de um rico patrimônio religioso desdobrado em inúmeras instituições e dimensões materiais e simbólicas, sagradas e profanas, de enorme importância para a identidade do país e dua civilização."(pág. 143)
"Porque o candomblé não distingue entre o bem e o mal do modo como aprendemos com o cristianismo, ele tende a atrair também toda sorte de indivíduos que têm sido socialmente marcados e marginalizados por outras instituições religiosas e não-religiosas. Isso mostra como o candomblé aceita o mundo da rua, da prostituição, dos que já cruzaram as portas da prisão." (Reginaldo Prandi. As religiões negras no Brasil: para uma sociologia dos cultos afro-brasileiros. Revista USP. São Paulo, n. 28, p. 64-83, dez/fev. 1996.) [pág. 144]
3 comentários:
Oi Elô,
Ainiciativa é excelente, pois fomenta um debate em nível acadêmico com refrências atualizadas.
Parabéns!!!!!!
Gostaria de poder ampliar o debate das citações com os outros membrosa da equipe de pesquisa.
Beijos
Leila
Não devemos nos alienar diante de tudo que lemos em livros, ou sabemos através de meios de comunicação. Os negros ao qual, compunham os quilombos eram vistos como rebeldes mas, não se procuraram divulgar suas reais preocupações,desejos e o porque de sua fuga. Dessa forma, a vida do negro, escravo em livros, revistas... é manipulada de forma negativa por mãos daqueles que querem mostrar uma verdade distorcida.
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