OXUM NA ORGANIZAÇÃO DO MUNDO
Era uma vez, no princípio do mundo, Olodumaré mandou todos os orixás para organizarem a terra. Os homens faziam reuniões e mais reuniões. Somente os homens, as mulheres não eram convidadas. Aliás as mulheres foram proibidas de participar da organização do mundo. Deste modo nos dias e horas marcadas, os homens deixaram em casa as suas mulheres e saiam para tomar as providências indicadas por Olodumaré.
As mulheres não gostaram de ficar de lado. Contrariadas foram conversar com Oxum. Oxum era conhecida como uma Iyalodé. Iyalodé é um título da pessoa mais importante entre as mulheres do lugar.
Na verdade parece que os homens tinham esquecido do poder de Oxum sobre a água doce. E sem a água doce, com certeza, a vida na terra seria impossível.
Oxum já estava aborrecida com esta desconsideração dos homens. Afinal ela não poderia de forma alguma ficar longe das deliberações para o crescimento das coisas da terra. Ela sabia de tudo que estava acontecendo. Era preciso compreender que todos são importantes para construção do mundo.
Procurada por suas companheiras, conversaram durante muito tempo e por fim a Iyalodé comunicou: - De hoje em diante, vamos mostrar o nosso protesto para os homens. Vamos chamar atenção, porque somos todos responsáveis pela construção do mundo. Enquanto não formos consideradas, vamos parar o mundo!
Parar o mundo? O que significa isto? Perguntaram as mulheres curiosas.
De hoje em diante, falou Oxum, até que os homens venham conversar conosco, estamos todas impedidas de parir. Também as árvores não vão mais dar frutos, nem as plantas vão florescer, nem crescer. Isto foi dito e isto aconteceu.
Aquela foi uma reunião nuito forte. A decisão foi acatada por todas as mulheres. E os resultados foram imediatos. Os planos que os homens faziam, começaram a se perder sem nenhum efeito.
Desesperados, os homens se dirigiam a Olodumaré e explicaram como as coisas iam mal sobre a terra. As decisões tomadas nas assembleias não davam certo de forma nenhuma.
Olodumaré ficou surpreso com as más notícias. Depois de meditar por alguns instantes perguntou:
Vocês estão fazendo tudo como eu mandei? Oxum está participando destas reuniões? Os homens responderam: - Veja senhor, estamos fazendo tudo “direitinho” como o senhor mandou. Agora, este negócio de mulher participando de nossas reuniões... Isto aí, a gente não fez assim não. Coisa de homem, tem que ser separado de coisa de mulher.
Olodumaré falou forte?
Os homens voltaram correndo para a terra e cuidaram logo de corrigir aquela grande falha. Quando chegaram à casa de Oxum, ela já esperava na porta, fazendo jeito de quem não sabia o que estava acontecendo. Aí os homens foram chegando e dizendo:
Agô nilê! (com licença).
Omo nilê ni ka agô (filho da casa não pede licença). (p. 69)
Deste jeito os convidou a entrar em sua casa. Conversaram muito para convencer a Oxum. Eles pediam que ela participasse imediatamente dos seus trabalhos de organização da terra. Depois que ela se fez bem de rogada, aceitou o convite.
Não tardou e tudo mudou como por encanto. Oxum derramou-se em água pelo mundo. A terrra molhada reviveu. As mulheres voltaram a parir. Tudo floresceu e os planos dos homens conseguiram felizes resultados. Daí por diante, cada vez que terminava uma assembleia, homens e mulheres cantavam e dançavam com muita alegria, comemorando o reencontro e suas possíveis realizações: Araketu ê Faraimará.
“O mito integra a criança numa época atemporal e aponta para o que está por trás do ritual e da literatura. O mito ensina a vida sem prescrever nenhuma norma de conduta específica. O mito está sempre apontado para a liberdade de escolhas. Ter metas, projetos de vida, passa pelo crescimento de estar atento para todas as possibilidades de ser-sendo. De modo que as experiências de vida possam sair do plano puramente físico e tenham a ressonância no interior do nosso ser e de nossa realidade mais interna. Importante é que sintamos o prazer de sermos diferentes, sem sermos inferiores. A escola ao restituir, a auto-estima e a identidade ao afrodescendente estará a caminho da reparação para a cidadania participativa e para a paz.” (p. 26)
“A tradição religiosa e cultural afro-brasileira apóia-se na oralidade. E os mitos são as estruturas e a rede de sustentação comunitária e espiritual de um povo (povo de santo). O trabalho com mitos, não é um trabalho isolado do processo de ensino aprendizagem. Considerando-os, deste modo, a tradição cultural vivenciada no terreiro, ou noutra comunidade de matriz africana, proporcionam aos seus participantes um apoio indispensável, também, para a sua vida como cidadão. O mito de Oxum na cosntrução do mundo, anuncia atitudes libertárias ensejando possibilidades de convivência e organização para uma vida.” (p. 26)
No entento, a escola com seu currículo prescritivo não permite os alunos conhecerem elementos da cultura afro-brasileira que legitima o discurso hegemônico, pautado nas políticas de embranquecimento que fortalecem as desigualdades sociais e raciais. Tais conteúdos também possibilitam uma cristalização de conceitos onde o aluno não expõe seus pensamentos e dificilmente levará para sua vida social, salvo assuntos específicos que envolverá sua futura carreira acadêmica (lembrando que vale apenas para uma pequena parcela da sociedade), logo, a escola se preocupa em formar um cidadão para o mercado de trabalho.
Tais conteúdos também não possibilitam uma interação social de convívio igualitário, assim, não aplicáveis no seu cotidiano, pois a meritocracia pregada nas instituições de ensino prevalecem na vida do indivíduo, ou seja, há uma concorrência onde o melhor aluno terá, possivelmente, um futuro brilhante. Estas questões são mais importantes do que a interação da vida em sociedade.
Olhar o mito no cotidiano escolar é de suma importância, por proporcionar novos valores e quebra de preconceitos; e por por vir sempre or meio da contextualizaçaõ. Portanto sua forma dinâmica e alegre torna-se um grande facilitador do ensino-aprendizagem. O mito por vir carregado de sentimentos e significados possibilita a convivência, a solidariedade e ainda desvela a origem do povo brasileiro, permitindo assim um novo olhar e caminhos para transformação do pensamento.
Além do mais, o mito insere o indivíduo emocional e intelectual no sistema de vivência da comunidade, proporcionando motivação e norteamento da vida, relacionando assim a sua própria natureza e o mundo no qual ele faz parte.
Com o mito de Oxum dentro da escola pode-se trabalhar um novo modelo de valorização de gênero, onde a mulher tem um papel fundamental para a construção e manutenção do mundo. Seus princípios promovem a cidadania que estão pautadas na democracia, na justiça, na igualdade, na equidade e na participação ativa de todos os membros da sociedade e nas decisões sobre seus rumos. Dessa maneira, o mito deixa claro que homens e mulheres têm direitos e deveres a cumprir e que perpassam tanto na vida política quanto na vida pública. Neste sentido, a mulher pode ser considerada, feminina-mulher-mãe e o de ser agente social, econômico e político. Uma mulher participativa, trabalhadora e que quer contribuir para a evolução dos tempos, como um ser humano que pensa, têm forças e que é “útil” à sociedade.
Outro princípio abordado pelo mito é o de convivência. A mulher tem o papel primordial porque traz o princípio básico da vida. Traz em si a condição natural de geração e manutenção da vida, os princípios dos cuidados, da criatividade e da cooperação, no entanto, seus direitos estão distorcidos e desiguasiguais, visto que o mundo atual agride diretamente essa mulher que na comunidade do terreiro é o esteio para a educação de seus membros, manutenção e organização da comunidade. É imprescindível observar a mulher pelo lado de sua integração na sociedade, conquistando espaço e ajudando a construir um mundo sem discriminação, onde homens e mulheres se completam na busca de um bem-estar conjunto, todos numa só união. E este é uns dos princípios de convivencia que o mito de Oxum busca ressaltar.
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