sexta-feira, 7 de março de 2008

Mãe Menininha do Gantois - Parte I

ECHEVERRIA, R. e NÓBREGA, C. Mãe Menininha do Gantois. Salvador: Corrupio; Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.


"Protegida por uma rígida lei do silêncio, praticada no passado como se fosse crime e perseguida pela polícia, o religião dos negros chegou ao Brasil para fazer história. Uniu escravos e descendentes espalhados pelo país com a força da fé e a obediência irrestrita aos líderes espirituais, substitutos da família dispersa e do governo que não era o deles. O povo da África no Brasil encontrou no candomblé identidade, proteção e apoio, um espaço próprio onde foi possível plantar os fundamentos de seus deuses."[pág. 14]


"No candomblé, aprende-se fazendo junto, aprende-se observando, aprende-se cumprindo obrigações.
O filho ou filha-de-santo começa o aprendizado no terreiro na mais simples condição, no mais baixo grau e sem qualquer poder, pois nada sabe ainda. Seu caminho começa numa escala de total submissão. Os mais novos são totalmente dependentes dos mais velhos, cuja missão é ensiná-los e prepará-los. [...] No candomblé, parte-se do princípio de que se um indivíduo aprende a obedecer certamente saberá mandar."[pág. 15]

EL: A hierarquia que se estabelece nos Terreiros, passa muito mais pela linha do respeito aos ancestrais e o que eles têm a ensinar que pelo poder, sem deixar de ser uma relação permeada pelo afeto.

LD: Eu diria que o poder é uma carcterística que pertence ao homem e o acompanha em qualquer situação. A diferença que o Candomblé oferece é que este poder encontra-se distribuído pelos Orixás de modo singular, ou seja, cada representação ancestral ou espiritual é responsável de modo igualitário por fenômenos da natureza e valores encontrados nas relações humanas. Este modo diferenciado de conceber a religião, reflete diretamente na maneira de se perceber o mundo e interfere nas relações com os outros. Neste sentido, os mais antigos são respeitados por suas experiências e sabedoria construída ao longo da vida.


"Orixás, vonduns e inquices constituem uma legião de entidades que, como aquelas cultuadas na Antiguidade, expressam sentimentos e paixões semelhantes às dos seres humanos. Bons e maus. A seus seguidores é permitido viver da mesma forma que os deuses e, fundamentalmente, sem culpa. Não existem no candomblé conceitos de pecado e redenção da forma como eles se apresentam nas religiões ditas reveladas, como a cristã, a judaica e a muçulmana."[pág. 25]

LD: A inexistência do pecado traz uma outra configuração religiosa para os adeptos, porque não exige um martírio ou algo punitivo a que o sujeito tenha que se submeter para a expiação da culpa. Ao contrário, a comunicação é direta como o Orixá que deve ser cuidado por quem crê nele: alimentado e louvado com dança e música para que sua energia atinja a todos.

"Como todos os escravos eram obrigatoriamente batizados na Igreja Católica ao chegar ao Brasil, seus donos e senhores permitiam que falassem a língua nativa entre eles e praticassem a própria religião, na certeza de que o batismo, em si, garantiria a conversão de todos ao catolicismo. Entretanto, ao fingir que aceitavam as práticas cristãs, os escravos camuflavam suas verdadeiras crenças sob o manto da devoção e da obediência. Nunca deixaram de cultuar suas divindades, mesmo que para isso precisassem abrigá-las numa outra identidade, como a de algum santo consagrado pela Igreja Católica."[pág. 26]

"Foram os crioulos, como eram chamados os descendentes de africanos nascidos na Bahia, e também escravos emancipados que iniciaram a organização das irmandades negras católicas sob invocação de Jesus, Nossa Senhora ou de um santo. Essas confrarias, no entanto, abrigavam outras intenções. Funcionavam como sociedades de alforria e camuflavam a implantação e realização dos cultos aos deuses africanos. Mulheres negras, principalmente as de origem nagô da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte com sede na Igreja da Barroquinha, no Centro Histórico da Cidade, foram decisivas para a expansão e consolidação do condomblé."[pág. 27]

"Deve-se à maneira de ser das antigas escravas emancipadas o sucesso da permanência de valores e tradições da cultura africana até os dias de hoje. Independentes, elas eram o verdadeiro centro da família: tudo e todos giravam em torno delas. Em sua maioria, mais ricas que os homens, viviam com companheiros e pais sucessivos de seus filhos.[...] Na cidade da Bahia marcaram presença com a força do trabalho ao ocupar ruas e mercados com seus tabuleiros de quitutes. Boas comerciantes, algumas enriqueceram e ostentaram seu sucesso cobrindo-se de jóias e vestimentas finas. Foram elas ainda que, na metade do século XIX, organizaram e dirigiram às escondidas as cerimônias religiosas africanas, conhecidas mais tarde pelo nome de Candomblé."[pág. 30]

EL: o candomblé, desde a sua fundação, pela sua origem negra (ou sabe-se lá pelo quê), sofreu uma discriminação violenta do resto da sociedade, com repressões policiais e publicações pejorativas na imprensa da época. O que, no entanto, não impediu que a religião de matriz afro-brasileira crescesse e conquistasse um sem número de iniciados, graças, em grande parte, às lideranças femininas que souberam, com muito tato e diplomacia, contornar atos discriminatórios advindos de várias esferas da sociedade. A repressão no século XIX era declarada e apoiada na alta sociedade da época, mas hoje, embora as religiões afro-brasileiras reunam uma considerável população e sejam uma expressão clara da cultura e da personalidade das pessoas, ainda se mantém idéias e atos preconceituosos, que acabam por gerar uma sociedade que não sabe reconhecer os laços que tecem a própria cultura.

LD: Além disso, tenta calar a existência de uma desigualdade étnico-racial com discursos, no mínimo, demagógicos de que o Brasil é um país miscigenado, na tentativa de encobrir ações discriminatórias que, em pleno século XXI, ainda permeiam atitudes sociais e pessoais em relação à contribuição cultural advinda da religião de matriz afro-brasileira.

2 comentários:

Vanessa Ladeira disse...

Podemos perceber, que a religião afro- brasileira e seus seguidores possuem uma característica bem especial, a perseverânça. Pois, dentre muitas repressões como a Lei do Silêncio, ao qual, proíbia o culto afro-brasieiro na metrópole do Rio de Janeiro, fazendo com que os seguidores viessem para o interior do Rio,sendo atualmente a BAixada, a religião permaneceu frente a muitas repressões. Mostrando suas singularidades, vem conseguindo ao longo dos anos reais reconhecimentos.

Renata Machado disse...

Um dado importante a ser ressaltado é que paulatinamente vão se abrindo pequenos espaços ou divulgando com mais regularidade, o que outrora, ou era proibido, ou não fazia parte da política vigente, e, portanto dificilmente seria pauta ou matéria de algum jornal, revista ou divulgado pela televisão. Um exemplo disto é a própria inserção do negro na mídia, salientando inclusive os temas relacionados à religião de matriz afro-brasileira, em que é visível o preconceito e a discriminação.